segunda-feira, 10 de março de 2008

ANÁLISE: O ASSASSINO ERA O ESCRIBA



Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os E.U.A
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia matei-o com um objeto direto na cabeça.


(Paulo Leminski.Caprichos e relaxos.São Paulo: Brasiliense,1983.p.144)



Trata-se de um poema metalinguístico, que retrata bem o tipo de aula desinteressante de muitas escolas atuais. Texto irônico ao extremo, critica a alienação das aulas de análise sintática que se deve ao fato da não contextualização dos conteúdos.
Para que o estudo da sintaxe não se torne inócuo, é essencial que o professor faça cada explicação ter sentido aplicado ao mundo. Assim, teremos um ensino de português mais atraente... E talvez assim, muitos alunos deixem de querer esganar o professor com o primeiro objeto direto que tiverem à mão.


                                                                                                                                                Marlucy


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